Transgênicos na praça

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A história dos transgênicos mudou para sempre no primeiro semestre de 1994. Após longos estudos, brigas regulatórias e testes de segurança, chegava ao consumidor americano o primeiro organismo geneticamente modificado (OGM) destinado à alimentação humana: um tomate.

Vendido comercialmente como Flavr Savr (um jogo de palavras que poderia ser traduzido como “conservador de sabor”), o fruto tinha resistência a fungos e maior viscosidade interna, o que, segundo os fabricantes, garantia uma vida de prateleira mais longa antes de estragar ou perder o gosto.

Hoje, os transgênicos estão por toda parte — do campo ao supermercado. Só que sua trajetória, quem diria, não começou tão bem assim. Há três décadas, o tomate que abriu caminho à categoria foi um fracasso comercial, deixando de ser cultivado em 1997.

A Calgene, empresa da Califórnia responsável pela tecnologia, não lucrou com a invenção e foi adquirida pela Monsanto, gigante que, em 2018, seria comprada pela Bayer. A semente da transgenia, contudo, já tinha sido plantada.

“É até irônico pensar que esse era o foco comercial 30 anos atrás”, avalia o biólogo Ricardo Dante, cientista da Embrapa e do Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (que utiliza a sigla em inglês GCCRC), com sede na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Atualmente, a maneira como uma planta transgênica é feita até que não mudou tanto, mas as características buscadas são outras: resistência a herbicidas e a insetos é muito mais relevante em termos econômicos.”

Mas, enquanto a ciência avança e as sementes desenvolvidas em laboratório tomam conta do agronegócio, polêmicas, mitos e incertezas da época do Flavr Savr ainda permanecem vivas no senso comum. Afinal, o que podemos esperar desse universo de OGMs, que agora envolve até a criação de bichos modificados?

Clique para ampliar (Foto: Richard Drury (Getty Images) | Ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

A rigor, fazer uma seleção de plantas que sobrevivem melhor em determinado ambiente, ou que rendam um alimento mais bonito e saboroso, não é exatamente uma novidade. É algo tão antigo quanto a própria agricultura: há cerca de 10 mil anos, as primeiras civilizações que decidiram parar em um lugar específico e começar a plantar já tinham que tomar decisões, na base da tentativa e do erro, para prevenir períodos de grande fome, que ainda assim aconteciam. Selecionar os melhores grãos e sementes era questão de sobrevivência.

Muito tempo depois, foi a partir do século 19 que passamos a entender as bases da hereditariedade, e apenas nos anos 1950, com as descobertas sobre o DNA, que se consolidou a concepção de genética que se perpetua até hoje. A seleção e o cruzamento rudimentares, que qualquer pessoa com uma horta em casa acaba fazendo sem se dar conta, também se ancoram nesses princípios, porém não exigem tecnologias sofisticadas para sair do papel.

Tudo mudou com os transgênicos. Neles, como o nome indica, você insere, por meio de instrumentos de ponta, um gene de uma espécie em outra.

O organismo original pode ser uma bactéria, outra planta, até um animal, que tenha uma característica que você deseja colocar no ser que vai ser modificado — digamos, um gene que torne um milho resistente a períodos de seca. Essa mágica acontece via engenharia genética.

“No início, a técnica era feita inserindo um gene de forma aleatória na planta-alvo, e isso podia inclusive atrapalhar outros processos no desenvolvimento dela. Hoje, o método é muito mais preciso, e você consegue saber onde está fazendo e como está fazendo”, explica a engenheira florestal Karen Kubo, coordenadora do curso de biotecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Um dos maiores avanços nessa seara foi o desenvolvimento de uma ferramenta de edição genética conhecida pela sigla Crispr-Cas-9. Fruto de pesquisas que renderam um Prêmio Nobel em 2020, ela ainda é usada na minoria das linhagens de OMGs disponíveis, mas cresce a passos largos.

“O Crispr possibilita a criação de culturas com características personalizadas de forma mais eficiente e previsível”, conta Karen.

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Clique para ampliar (Foto: D-Keine/Getty Images)

Os malabarismos dentro do laboratório não deveriam ser fonte de preocupação para o consumidor. Para que um produto seja liberado no mercado, as exigências de segurança continuam as mesmas, a despeito da intervenção genética. Mas, para a indústria, uma maior precisão reduz os custos e o tempo necessário para entender o potencial de um OGM.

“A técnica tradicional e utilizada na maioria dos transgênicos se vale de um vetor, o que exige mais testes para saber se não haverá nenhum prejuízo”, diz o engenheiro-agrônomo Humberto Madeira, também professor da PUC-PR, que coordenou estudos de genômica como pesquisador da Fulbright, fundo científico ligado ao governo americano.

Vetores, no caso, costumam ser micro-organismos que levam o gene desejado ao trecho do DNA da planta-alvo. “Não que o método convencional e mais antigo seja mais arriscado para a saúde ou o ambiente, mas dá muito mais trabalho e exige mais testes”, esclarece Madeira.

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No Brasil, a história do uso dos transgênicos remonta à primeira metade dos anos 1990. O início foi conturbado. Grandes produtores do Sul do país começaram a plantar soja geneticamente modificada sem nenhuma regulamentação, dependendo de uma medida provisória (MP) do então governo Fernando Henrique Cardoso para conseguir levá-la ao mercado.

O embasamento jurídico, porém, ainda era precário, e em 1998 uma ação voltou a barrar a comercialização por cinco anos até a edição de uma nova MP. Foi só com a Lei de Biossegurança, aprovada em 2005, que impasses legais se resolveram e abriram alas à pesquisa e ao desenvolvimento da categoria.

A legislação de quase duas décadas atrás reorganizou a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão pelo qual os OGMs utilizados no Brasil têm de passar para demonstrar que não fazem nenhum mal ao meio ambiente e aos consumidores. Só com esse crivo eles podem debutar no mercado.

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Clique para ampliar (Foto: Richard Drury/Getty Images)

Segurança

Mesmo depois de décadas de debates e regulamentações, ainda permanecem mitos e dúvidas em torno da segurança dos transgênicos. Em 2012, um estudo francês jogou mais lenha na fogueira ao concluir que um grupo de ratos alimentados com milho geneticamente modificado havia apresentado maior propensão ao câncer.

Imediatamente, porém, a comunidade científica questionou os achados dentro e fora da França: vários dados teriam sido ocultados pelos pesquisadores, notórios ativistas contra os OGMs, e os animais foram alimentados com uma dieta diferente daquela dada em condições normais — e totalmente incomparável com o que um humano comeria.

Pela falta de embasamento, o artigo foi retirado do ar pelo periódico que o publicou, mas o estrago já estava feito. Manchetes ligando transgênicos ao câncer ganharam o mundo.

Ainda que mensagens do tipo sejam divulgadas até os dias de hoje, elas vão na direção contrária à das evidências científicas. Revisões de estudos mundo afora, que comparam dezenas ou centenas de pesquisas sobre o tema, não veem associação entre a ingestão de transgênicos e o surgimento de tumores.

Eles tampouco aumentam o risco de obesidade, demência ou mesmo alergias — nem são capazes de interferir no nosso DNA. Por sinal, um dos requisitos de segurança no processo de desenvolvimento de um OGM é justamente verificar se o alimento modificado não vai causar reações inesperadas em alguém que não tem problemas com a versão natural do produto — o que inclui alergias.

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O que as investigações mostram, isso sim, são agravos à saúde ligados ao uso de agrotóxicos nas lavouras — que, no Brasil, quando falamos das maiores commodities de exportação, são majoritariamente compostas de transgênicos. O problema não reside nos OGMs em si, mas em uma espécie de “venda casada” que as grandes empresas do setor são suspeitas de fazer.

Aqui, o debate se torna mais complexo: é verdade que os transgênicos são formulados para resistir melhor a pragas e reduzir o uso de defensivos agrícolas — graças a isso, é possível minimizar ou evitar o emprego de herbicidas, fungicidas, inseticidas e afins. Na prática, porém, ambientalistas questionam o modo como as coisas são feitas.

Isso porque o volume total de agrotóxicos aplicados nas lavouras continua elevado. Empresas do ramo, que às vezes estão ligadas tanto à fabricação de defensivos como ao desenvolvimento dos OGMs — caso da Monsanto —, chegaram a ser acusadas de planejar sementes de modo a gerar uma dependência dos agricultores de um tipo de agente químico, o glifosato.

Ocorre que, controvérsias à parte, a substância já foi classificada pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer como “provavelmente cancerígena”. O imbróglio levou a Alemanha a banir produtos com glifosato e a França a oferecer incentivos para diminuir o uso. No Brasil, ele segue liberado, com restrições.

As companhias envolvidas nessa história alegam que os dois elos da cadeia passam por testes a fim de garantir a segurança de quem vai desfrutar dos alimentos. Contudo, críticos dos transgênicos apontam que a propriedade intelectual em torno das sementes e dos defensivos que costumam ser utilizados nas plantações deixam os produtores presos a uma mesma empresa para garantir as safras seguintes.

“A questão é que, quando você tem poucos atores controlando o mercado de sementes e os sistemas de produção, esse problema vai persistir, sendo ou não sendo transgênico”, argumenta a engenheira-agrônoma Isabel Gerhardt, pesquisadora da Embrapa e também integrante do GCCRC. “Por isso é importante que haja investimento em pesquisa no setor público, especialmente em relação à segurança alimentar, para que os agricultores não tenham à disposição só as culturas fornecidas pela iniciativa privada”, defende.

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Clique para ampliar (Ilustração: Laura Luduvig/Veja Saúde)

Contra a fome

Segurança alimentar é um termo inescapável quando se fala em dar de comer a uma população global que caminha para superar 9 bilhões de pessoas até 2050. Se há uma certeza diante de tantas bocas no horizonte, é que o mercado de transgênicos não irá dar um passo para trás. Ainda mais com mudanças climáticas e outros desafios ambientais à vista. Muito além das plantas, lá fora a indústria investe pesado nos primeiros produtos de origem animal para consumo humano que passam por melhoramento no DNA.

Desde 2015, está aprovado nos EUA um salmão geneticamente modificado para crescer mais rápido sem que tenha menos nutrientes por causa disso. Em 2020, o órgão regulatório do país deu sinal verde à comercialização de um porco alterado para não causar reação alérgica em algumas pessoas com sensibilidade a um tipo de açúcar chamado alfa-gal, presente em suínos comuns.

Dois anos depois, em 2022, a Food and Drug Administration (FDA), a Anvisa americana, liberou um gado editado geneticamente para ter uma pelagem “leve”, permitindo sua criação em áreas mais quentes — uma medida que reduz o estresse dos bois.

Além de viabilizar a adaptação do animal a novas regiões, isso aumentaria o bem-estar dos bovinos frente à elevação de temperaturas no mundo todo, garantindo uma carne sem perdas nutricionais decorrentes dos períodos mais quentes do que aqueles a que a espécie está acostumada.

Diante de desafios como o aquecimento global, plantas transgênicas hoje são pensadas não só do ponto de vista da própria sobrevida em um ambiente mais hostil, mas também do seu impacto ecológico.

“Ao diminuir a quantidade de pesticidas, você tem uma frequência menor de máquinas indo ao campo para pulverizar esses produtos. Há uma economia de combustível, uma menor compactação do solo e uma maior produtividade em função desse melhor manejo”, expõe Madeira.

“No passado, o foco estava todo no aumento da produtividade. Hoje, ele também está em sermos capazes de ter culturas produtivas em um ambiente com os estresses da seca, do calor, do alagamento, dos micro-organismos e insetos que migram em função das mudanças climáticas”, explica Isabel.

Curiosamente, a nova fronteira dos OGMs também começa a resgatar algumas ideias do passado. Se o tomate Flavr Savr não deu muito certo, e nas quase três décadas desde então o olhar esteve em como garantir safras cada vez maiores através da transgenia, hoje já há novos produtos que buscam adicionar vantagens nutricionais para o consumidor final.

Nas Filipinas, mesmo encontrando resistência de grupos ativistas que discutem os riscos ambientais e sociais da iniciativa, já começou a se plantar em larga escala uma variedade de arroz amarelado, vendida comercialmente como Golden Rice. O cereal passou por engenharia genética para conter betacaroteno (o famoso pigmento das cenouras) como forma de combater a deficiência de vitamina A, que leva à perda da visão.

O futuro da engenharia genética na alimentação, aliás, pode até passar por OGMs que não são transgênicos. Quanto mais a ciência avança para entender o DNA e as características do que plantamos e colocamos no prato, mais se descobrem vantagens em diferentes indivíduos (ou genótipos) de uma mesma espécie.

Quando a alteração é feita dessa forma, e não entre espécies, o prefixo muda: como não vem um gene de fora, não se trata de “trans”, mas de cisgênicos. Na prática, são mudanças que poderiam ser feitas naturalmente, através de cruzamentos por tentativa e erro como se faz há milênios, só que, agora, com a vantagem de serem realizadas de forma precisa com as ferramentas da genômica.

“É outra mudança em curso, uma discussão que também precisa ser encarada pelas agências regulatórias. Não preciso sequer cruzar dois indivíduos de uma mesma espécie, apenas pegar o gene de um deles”, destaca a pesquisadora da Embrapa. Com as transformações no planeta, convenhamos que, seja trans, seja cis, todo alimento devidamente testado e aprovado será bem-vindo para abastecer a humanidade.

Fonte: Externa

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