Flavia Guerra Maria Fernanda Candido se desconstrói para viver ‘A Paixão Segundo G.H.’

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O que sobra quando deixamos todas as máscaras? A essência. É justamente a essência humana e sua própria desconstrução que Maria Fernanda Candido busca em “A Paixão Segundo G.H.”, novo filme de Luiz Fernando Carvalho que chega aos cinemas brasileiros depois de um longo período de gestação.

O filme parte do romance homônimo de Clarice Lispector e foi fielmente transposto para o cinema, tendo a escrita de Clarice como roteiro primordial. Cada letra, cada palavra que Maria Fernanda diz vem da escrita e do universo interior criado pela autora para sua personagem.

Na trama, Maria Fernanda vive G.H., uma escultora de classe alta que mora em Copacabana e que, um dia depois de sua empregada pedir demissão, resolve arrumar seu apartamento e decide começar pelo quarto de serviço. No dia anterior, a empregada se despedira, algo que parece banal, mas é crucial na história. No quarto praticamente vazio, G.H. encontra uma enorme barata que representa também seu próprio horror em relação à sociedade, cheia de preconceitos em relação aos que julga que são seres inferiores.

Maria Fernanda Candido vive G.H. em filme inspirado na obra de Clarice Lispector Imagem: Divulgação

Diante do inseto, ela entra em crise existencial, mas também se encanta. A experiência revela a perda da identidade da escultora, que começa a questionar tudo, inclusive sua própria existência e regras sociais em relação ao ser mulher. Ainda que lançada em 1964, a obra de Lispector continua atual até hoje.

(Des)construção da personagem

Para fazer G.H., que muitos dizem que se trata de “Gênero Humano”, a atriz não passou por um processo de construção de personagem, mas sim de desconstrução. Afinal, nesta busca pela essência da vida, era preciso se desapegar de convenções sociais, morais, trejeitos, camadas e camadas de códigos que formam uma mulher ou até mesmo uma pessoa. O processo, claro, foi longo, mas recompensador. O espectador que se dispuser a também se desconstruir do que em geral se espera de um filme convencional e mergulhar no universo criado por Luiz Fernando, Maria Fernanda e toda equipe do filme vai se surpreender.

Filmado pelo próprio cineasta, que operou a câmera sempre muito próximo da atriz, o longa traz momentos de pura poesia visual (ninguém nunca filmou uma barata com tamanha generosidade), sempre tendo o corpo, os movimentos e o rosto de Maria Fernanda muito próximos da câmera e do público. A viagem dela por sua consciência, seu apartamento e pelo quarto da empregada é também feita pelo público.

Para chegar a tamanha simplicidade e, ao mesmo tempo, sofisticação, houve um preparo longo e de amadurecimento tanto da atriz quanto da equipe e do diretor. Do momento em que o cineasta deu o livro de presente para Maria Fernanda, quando os dois ainda filmavam a novela “Esperança” (2002/2003), ao convite para viver a personagem, feito em 2008, até o “ação”, em 2018, passaram-se vários anos.

Maria Fernanda vive G.H., uma escultora de classe alta que mora em Copacabana
Maria Fernanda vive G.H., uma escultora de classe alta que mora em Copacabana Imagem: Divulgação

Narrativa intimista

No meio tempo, ainda em 2017, houve o início de um processo de um ano de ensaios, com leituras, dinâmicas, palestras e muito diálogo sobre como transpor para a tela um dos livros mais desafiadores da literatura brasileira. Lançado por Clarice Lispector em 1964, “A Paixão Segundo G.H.” marca a guinada da autora para uma narrativa mais intimista, em que sua subjetividade estava profundamente intrincada com os questionamentos da personagem de G.H., que narra o livro em primeira pessoa.

“Foi o primeiro romance que a Clarice virou, saiu da terceira pessoa e foi para a primeira, foi para o “eu”. Então, isso é um “eu” que não é um “eu legislador”, não é um “eu ordenador”, é um “eu democrático”, um “eu feminino”, um “eu aberto” que te chama para entrar naquilo, não importa gênero, classe social, raça, religião, nada”, comentou o diretor em entrevista a Splash.

A primeira vez que eu li o livro, tinha 28 para 29 anos e foi um presente do Luiz. Essa primeira leitura foi muito impactante. Foi forte, mexeu muito comigo na época e a frase que ficou impregnada na minha vida é uma frase que carrego comigo: E a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes.
Maria Fernanda a Splash

“Eu fiquei muito com essa frase e talvez ela tenha me ajudado a ser uma pessoa mais flexível comigo mesma. Acho que mais atenta ao meu, aos meus processos e menos aos resultados. Acho que aprendi a abraçar mais meus próprios erros. A me aceitar melhor. Foi um livro que de fato promoveu muitas mudanças, muitas transformações em mim”, completou a atriz.

Como observou Luiz Fernando, a transformação também estava na própria autora, que o escreveu em um momento de grandes mudanças em sua vida.

Você vai abrindo esse “eu” dela, se desdobrando em vários “eus” e você vai sentindo o que ela está sentindo. Esse relato, que para mim também sempre se assemelhou uma espécie de carta cifrada que ela escreve para mim, para você, para qualquer um, sobre o momento de vida dela. Esse texto foi escrito num momento de ruptura, quando ela rompeu com o casamento e rompeu com uma relação amorosa bastante forte que ela estava vivendo, então é quase como se fosse uma escritura.
Luiz Fernando Carvalho

“O texto é uma queda para o alto. Quando ele estava caindo para baixo, ela produziu uma sobrevivência como o ser mesmo, como pessoa. Para essas dores todas de existir, ela produziu. Ela se salvou com esse relato. E é por isso que esse relato é inclassificável.”

Além de inclassificável, apontado por muitos como “infilmável”, “A Paixão Segundo G.H.” exigiu a abordagem original na linguagem, na técnica e também na forma como Maria Fernanda desconstruiu, em vez de construir, a personagem.

É o desaprender, o desmoronar, o despersonalizar. É um filme todo do campo do “des”. E é por isso que eu digo que foi talvez a anti-interpretação, a anti-atuação. Foi muito desafiador, mas, ao mesmo tempo, muito fascinante. É um processo de um encantamento, porque quando você vai quebrando um pouco os seus próprios limites, isso vai te dando um prazer absoluto, uma sensação de que é possível esse alargamento das suas próprias fronteiras.
Maria Fernanda Candido

Dinâmicas sociais

Atriz não passou por um processo de construção de personagem, mas sim de desconstrução
Atriz não passou por um processo de construção de personagem, mas sim de desconstrução Imagem: Divulgação

Um ponto que rompe limites sobre a forma como a obra foi lida e interpretada até hoje é a presença da empregada Janair (vivida por Samira Nancassa), que se despede e deixa um desenho feito com carvão na parede de seu quarto, o que também provoca a ex-patroa ao entrar no universo da ex-funcionária.

Como apontam diretor e atriz, muitos leitores e até estudiosos da obra de Lispector sempre leram a frase “se despedira” como “foi despedida”. “Luiz joga um holofote, e faz muito bem fazer isso, sobre essa questão sociológica do livro, que não teve a sua leitura em 1964. Em 1964, o livro foi considerado um livro intimista, introspectivo. Ok, mas esse olhar sociológico não foi feito ali nessa leitura. Não aconteceu porque talvez nós, como sociedade, ainda não estávamos prontos, não podíamos ainda fazer”, observa Maria Fernanda.

Para a atriz, hoje nós não só podemos como temos a obrigação de ler com olhos atentos às dinâmicas sociais do Brasil.

“Porque temos a história atrás de nós temos, temos toda a discussão que já vem sendo feita. Então, a gente tem essa luz jogada sobre essa questão. E você vai ter um filme que vai discutir essa questão no ser do existir humano, mas não sem antes passar por essa discussão que é da luta de classes, da raça, de idade”, completou a atriz.

Luiz Fernando observa que o livro tem muitas camadas e essa é uma camada sociológica. “Essa talvez seja a primeira camada que surge. A barata é um receptáculo aberto, pronto para ser preenchido com vários significados, para receber todas essas leituras. Ela não é só uma barata. Eu conheço muita gente que lê o livro da barata, ou que parou na barata. Essa pessoa não entendeu nada. Essa primeira camada é uma camada sociológica muito importante, mas que está lá nas entrelinhas da Clarice. Está lá até nas linhas. Mas esse pronome reflexivo “se despedira” acaba produzindo, na maioria dos leitores e também de estudiosos da obra, o apagamento da Janair.”

“É como se a gente retirasse da Janair a ação de pedir as contas, de ela de se despedir e de a gente poder imaginar por que motivo ela se despedira. Então, essa camada sociológica também se impõe neste momento. Porque, ok, esse é um texto escrito em 1964. Mas talvez Clarice não pudesse, naquela altura, naquela década, ou talvez não tivesse conseguido, dentro da sua linguagem, eclodir com essa camada social.”

Hoje, “filmando com a mão da história”, este detalhe tão crucial ganha destaque e atualiza a obra. ” A mão da história estava segurando a câmera junto comigo. Então era necessário reescrever a história. Acho que essa é a função de todo artista, de todos nós”, conclui o diretor.

Este gesto de atualização se completa com o olhar do espectador, que ganha um novo G.H. para se questionar e encantar ainda mais com o universo rico da união de autores como Maria Fernanda, Luiz Fernando e a genial Clarice Lispector.

Fonte: Externa

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