Classe média argentina: um símbolo que enfraquece com a crise

Voguel
Voguel 3 Leitura mínima

Agustina Bovi tem dois empregos, mas não pode gastar com esporte e lazer. Samanta Gómez não pode mais pagar por educação e saúde: a classe média, símbolo histórico de uma Argentina igualitária, está afundando com o peso da inflação e dos reajustes.

“Nos últimos três meses tive que cancelar academia, saídas, tudo o que é lazer”, conta Bovi. “Há muito tempo não compro roupas. Os gastos em casa são básicos. Mudamos marcas de creme dental, de desodorante. Atualmente compramos só o mais barato no mercado e abdicamos de produtos”.

“Eu me considerava de classe média. Agora sinto que quem era de classe média passou para classe baixa ou pobre”, afirma a jovem.

– Um símbolo nacional naufraga –

Ezequiel Adamovsky, historiador especializado no tema, explica que a classe média argentina está encolhendo há 50 anos e o país perde a base que antes o tornou próspero.

A situação se agravou desde que Milei cortou subsídios ao transporte, combustível e taxas de serviços, eliminou normas que regulamentavam os contratos de locação e os preços do atendimento médico privado. Isto se somou ao golpe inflacionário causado por uma desvalorização de 50% a poucos dias de sua posse.

Desde então, os salários perderam um quinto de seu poder aquisitivo (18%), em sua pior queda em 21 anos, segundo o índice oficial RIPTE.

A pobreza alcança quase seis a cada 10 argentinos.

“Os salários sofreram um queda inédita”, disse Adamovsky. “Não havia uma queda tão rápida dos níveis salariais desde a época dos militares” (1976-1983).

Atualmente, a classe média “não é homogênea” mas um “conjunto de fragmentos, como os destroços de um naufrágio”, afirmou.

Um de seus símbolos era Mafalda, a menina dos quadrinhos de igual nome desenhada pelo cartunista Quino (1932-2020).

Esta transformação não é apenas quantitativa, mas também ideológica. Atualmente, gastos públicos em saúde e educação, assim como subsídios à cultura e pesquisa, são “atacados e apontado como males do país”, segundo Adamovsky.

Samanta Gómez, uma enfermeira de 39 anos, precisou transferir seus filhos de uma escola particular para uma pública devido ao aumento nas mensalidades e também suspendeu atividades recreativas com gastos. “Só vamos à praça”, relata.

“Antes vivia de forma mais controlada e de repente um tsunami arrasou as vidas que levávamos até dezembro. Houve uma mudança de 180 graus”, diz a mulher, que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em fevereiro.

“Acho que minha cabeça colapsou com a preocupação financeira, a saúde das crianças, o colégio, o cotidiano deles”, lamenta.



Fonte: Externa

ofertas amazon promoção
Clique acima para adicionar um desconto excluivo na Amazon! Aproveite as ofertas de hoje.